Foi aprovado, recentemente, pelo parlamento grego o pacote que, supostamente, tiraria a Grécia da mais grave crise financeira europeia desde a criação da zona do euro, em 2002. Entre outras coisas, o pacote envolve políticas fiscais muito duras, como a redução do salário dos funcionários públicos, diminuição dos quadros da função pública, privatizações, aumento de impostos, diminuição dos gastos militares, entre outras coisas. O principal objetivo de tais reformas é de diminuir a dívida pública grega, avaliada em cerca de US$ 421 bilhões (300 bilhões de euros), o que equivale a mais de 150% do PIB do país. A previsão do déficit fiscal da Grécia para 2011 é de 12% do PIB, muito acima do limite de 3% imposto pelas regras macroeconômicas da UE.
A aprovação do pacote de reformas é uma condição imposta pela UE e pelo FMI para que o governo grego receba uma ajuda financeira suplementar, de cerca de 110 bilhões de euros (US$ 160 bilhões), a fim sanar suas contas públicas. A questão é se as reformas e a ajuda financeira permitirão que a Grécia saia da crise.
No editorial de sua edição do dia 25 de junho, a revista britânica The Economist questiona a eficiência deste empréstimo, que será cedido pelo recém criado Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM, na sigla em inglês), o qual substitui o antigo Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. Segundo o periódico britânico, a Grécia tem três alternativas. A primeira delas seria pôr em prática as reformas e receber a ajuda financeira. O problema desta medida é que o custo político e social é muito alto. A segunda alternativa seria declarar a moratória, o que poderia irradiar a crise para outros países endividados da UE, como Irlanda, Portugal, Espanha e mesmo Itália. Uma terceira alternativa seria reestruturar a dívida. O presidente Francês, Nicolas Sarkozy, declarou recentemente que grandes bancos franceses poderiam arrolar a dívida grega. Esta terceira alternativa, se bem coordenada, poderia ser uma solução mais eficiente e racional para a situação grega atual.
Em um artigo publicado recentemente no Financial Times, o editor desse jornal, Martin Wolf, formula o que poderíamos chamar de dilema da zona do euro. Com a implementação da moeda única europeia, os países europeus perderam sua autonomia em termos de política monetária e cambial. Por outro lado, tais países mantiveram sua autonomia com relação à política fiscal. Esta situação acabou gerando incoerência entre políticas macroeconômicas comunitárias e nacionais. Wolf ressalta que, para resolver a crise, a UE europeia se encontra diante do seguinte dilema: ou desintegra-se a zona do euro, ou aprofunda-se a zona, através da criação de mecanismos que harmonizem e coordenem as políticas fiscais dos países membros do bloco. O problema é que a UE encontra-se, atualmente, em um momento de imobilidade política para tomar grandes decisões.
Uma outra discussão que ocorre atualmente é sobre uma possível saída – ou exclusão – da Grécia da zona do euro. Esta medida seria simplesmente catastrófica para a Grécia, pois sua dívida está indexada ao euro, e uma eventual volta ao dracma (antiga moeda grega) aumentaria exponencialmente o valor de sua dívida.
A situação atual da Grécia assemelha-se à situação da Argentina em 2001/2002. Contrariamente ao país helênico, o governo argentino decidiu negociar a reestruturação da dívida. O custo econômico desta medida foi alto, tendo em vista que a Argentina foi excluída do circuito financeiro internacional. A grande diferença no caso da Grécia é que ela não tem moeda própria, o que diminui substancialmente sua capacidade de negociação, sem contar que o impacto que uma decisão como esta poderia exercer no resto da zona do euro. Resta saber se os benefícios destas reformas compensarão o custo social imposto aos cidadãos gregos.
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