Em um artigo recente, Fareed Zakaria, ex-editor da Newsweek e atual âncora da CNN, defende que os Estados Unidos (EUA) estão perdendo seu poder relativo face à ascensão de outros Estados. Baseado na tese do historiador Mancur Olson, Zakaria sustenta que os EUA passam neste instante por uma fase de declínio, tal como a Grã-Bretanha após a Segunda Guerra Mundial. A ideia fundamental que subjaz os argumentos de Zakaria é que o sucesso dos EUA durante o período pós-Guerra levou este país à paralisia – ou, para usar a expressão de Zakaraia, à esclerose.
Embora reconheça que os EUA ainda estejam à frente em vários setores, como no de tecnologias da informação, de biotecnologia e de nanotecnologia, Zakaria ressalta que as instituições políticas americanas passam por um período de completa imobilidade. Neste ponto, ele é corajoso não somente por questionar a eficiência do governo americano, mar principalmente por afirmar que a Constituição americana, considerada nos EUA como um documento sagrado, está desatualizada.
Além dos aspectos políticos, Zakaria ressalta os aspectos econômicos e sociais. A partir de dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ele mostra que os EUA estão ficando para trás em áreas como infraestrutura, expectativa de vida e saúde pública. Outro problema sério nos EUA é o índice de criminalidade, que é bastante elevado comparativamente aos outros países membros da OCDE. No que diz respeito à economia, os déficits comercial e fiscal, assim como o volume da dívida, representam desequilíbrios macroeconômicos graves, e de difícil solução no curto e médio prazos.
Em resposta ao artigo de Fareed Zakaria, Josef Nye, professor na Universidade Harvard e ex-conselheiro do ex-presidente americano Bill Clinton (1993-2001), argumenta que os EUA passam regularmente por períodos de pessimismo. Segundo Nye, não é a primeira vez que se fala do declínio do poder americano. Trata-se de uma visão pessimista que se repete ciclicamente.
Nye ressalta que os EUA ainda se encontram em primeiro lugar em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e em quarto lugar no que diz respeito ao índice de competitividade, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial (FEM). Quanto ao aspecto político, Nye chama atenção para o fato de que os Pais Fundadores dos EUA criaram um sistema político de verificação e revisão (checks and balances). Portanto, se por um lado o governo americano e as instituições políticas em geral encontram-se enferrujadas, por outro o sistema possui mecanismos para melhorar essa situação. Em resumo, Nye sustenta que os EUA ainda mantêm sua liderança na cena internacional.
O argumento de Fareed Zakaria tem o mérito de colocar a discussão sobre a mesa. Nye tem razão ao lembrar que não é a primeira vez que se afirma que os EUA estão em um processo de decadência. Mas a questão levantada por Zakaria é legítima: desta vez é para valer? Alguns elementos apontam para uma resposta positiva a essa pergunta.
Primeiramente, os desequilíbrios macroeconômicos americanos são muito sérios. A Comissão Orçamentária do Congresso americano estima que o déficit fiscal deste país em 2010 foi da ordem de US$ 1,3 trilhões, equivalentes a 9% do PIB. Este valor ultrapassa o PIB do Brasil, por exemplo. O déficit comercial, no mesmo ano, foi de US$ 497 bilhões, enquanto a dívida ultrapassou a casa dos 14 trilhões, ou seja, quase o valor do PIB americano.
Em segundo lugar, os EUA passam, efetivamente, por uma fase de retrocesso social. Existe nos EUA uma mentalidade de aversão ao governo. Essa mentalidade, somada à crise de 2008/2009, resultam em uma diminuição substancial dos gastos públicos. Em terceiro lugar, a crise econômica americana propiciou o surgimento de movimentos políticos reacionários, como o Tea Party.
Em suma, a tese defendida por Zakaria sobre a ascensão do resto do mundo é bastante pertinente. Entretanto, ao contrário da visão americana, as mudanças globais podem ser benéficas, pois podemos estar caminhando em direção a um mundo multipolar e multilateral.
Tags: declínio americano, estados unidos, eua, Fareed Zakaria, Josef Nye, mudanças globais, multilateral, multilateralidade, multipolar, multipolaridade